José Carreras "visitou" anteontem o Casino
Estoril onde actuou num recital breve, que
permitiu assim mesmo apreciar algumas
das qualidades de uma das mais belas
vozes da segunda metade do século XX.
Seriam precisamente os seus dotes vocais,
aliados a uma presença que sublinhava a
intensidade das partes dramáticas, o
denominador de inesquecíveis criações - por
altura da segunda metade dos anos setenta
e primeira dos oitenta. Mal cumpridos os
trinta anos, Carreras convertera-se num
tenor carismático, a quem era tão fácil conquistar os aplausos no Met
norte-americano quanto o carinho que lhe dispensavam os seus conterrâneos no
Gran Teatro del Lyceo. Em 1987 encontra-se de novo envolvido num drama, só
que desta vez o "libretto" pertencia à vida real...foi-lhe diagnosticada leucemia,
com um nível de gravidade que levou a que a maioria dos que o rodeavam
(médicos incluídos) temessem o pior. A partir daí a história é sobejamente
conhecida e teve um desfecho feliz: vencida a doença, o cantor catalão, que o
"divino" Karajan tanto admirou na derradeira etapa da sua carreira, regressa aos
palcos e alcança uma notoriedade mundial sem precedentes, ao ombrear com
Luciano Pavarotti e Plácido Domingo na fórmula mediática dos Três Tenores,
embora sempre na terceira posição.
Vida nova
José Carreras entrou, há uma dúzia de anos, no grupo restrito dos seres
humanos que sentiram a iminência da morte e a venceram permanecendo
inevitavelmente marcados por essa experiência transcendente. Durante esse
período, o cantor retomou um percurso artístico em que, para lá do fenómeno já
mencionado, voltaria a conseguir prestações de incontestável qualidade, a
despeito da sua voz ter "escurecido", enquanto administrava sabiamente a sua
vitalidade. A passagem pelo Estoril é disso exemplo pela escolha dos temas
interpretados, em que foi desde o primeiro momento um prazer verificar a sua
perfeita dicção. Muito variado em termos autorais apesar da sua curta duração
(três quartos de hora), o recital serviu igualmente para comprovar as satisfatórias
condições acústicas do salão Preto e Prata, neste caso prejudicadas pela falta
de educação de alguns dos presentes (felizmente uma minoria), que não se
coibiram de abrir ruidosamente garrafas de champagne durante um espectáculo
que implicava profunda concentração por parte dos artistas. Merece igualmente
referência o correcto acompanhamento ao piano a cargo de Lorenzo Bavaj,
particularmente feliz na execução (em interlúdios) de dois temas de Astor
Piazzola. Entre os vários momentos de canto, os mais bem sucedidos foram
"Malinconia d'Amore" (D'Anzi) e "Musica Proibita" (Gastaldon) pondo em
evidência a doçura sensual de um timbre peculiar. Contudo, a apoteose viveu-se
apenas nos momentos finais dedicados às canções espanholas - "Aranjuez",
maravilhosa composição de Joaquin Rodrigo e, em especial, "Granada", a que a
inspiração de Lara imprimiu algo do fascínio daquela cidade andaluza. Carreras
está prestes a completar 54 anos e o seu aspecto revela traços de
envelhecimento que a doença, apesar de dominada, terá acelerado. Assim
mesmo, revela ainda potencialidades que justificam a atenção dispensada às
suas actuações, como foi patente num "encore" pleno de sensibilidade: "Torna a
Sorriento" (Curtis). Pela nossa parte, saudaremos sempre o seu regresso.
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