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Uma Voz Doce 'à Sobremesa' No Casino
By Andrade Guerra


José Carreras "visitou" anteontem o Casino Estoril onde actuou num recital breve, que permitiu assim mesmo apreciar algumas das qualidades de uma das mais belas vozes da segunda metade do século XX. Seriam precisamente os seus dotes vocais, aliados a uma presença que sublinhava a intensidade das partes dramáticas, o denominador de inesquecíveis criações - por altura da segunda metade dos anos setenta e primeira dos oitenta. Mal cumpridos os trinta anos, Carreras convertera-se num tenor carismático, a quem era tão fácil conquistar os aplausos no Met norte-americano quanto o carinho que lhe dispensavam os seus conterrâneos no Gran Teatro del Lyceo. Em 1987 encontra-se de novo envolvido num drama, só que desta vez o "libretto" pertencia à vida real...foi-lhe diagnosticada leucemia, com um nível de gravidade que levou a que a maioria dos que o rodeavam (médicos incluídos) temessem o pior. A partir daí a história é sobejamente conhecida e teve um desfecho feliz: vencida a doença, o cantor catalão, que o "divino" Karajan tanto admirou na derradeira etapa da sua carreira, regressa aos palcos e alcança uma notoriedade mundial sem precedentes, ao ombrear com Luciano Pavarotti e Plácido Domingo na fórmula mediática dos Três Tenores, embora sempre na terceira posição.

Vida nova

José Carreras entrou, há uma dúzia de anos, no grupo restrito dos seres humanos que sentiram a iminência da morte e a venceram permanecendo inevitavelmente marcados por essa experiência transcendente. Durante esse período, o cantor retomou um percurso artístico em que, para lá do fenómeno já mencionado, voltaria a conseguir prestações de incontestável qualidade, a despeito da sua voz ter "escurecido", enquanto administrava sabiamente a sua vitalidade. A passagem pelo Estoril é disso exemplo pela escolha dos temas interpretados, em que foi desde o primeiro momento um prazer verificar a sua perfeita dicção. Muito variado em termos autorais apesar da sua curta duração (três quartos de hora), o recital serviu igualmente para comprovar as satisfatórias condições acústicas do salão Preto e Prata, neste caso prejudicadas pela falta de educação de alguns dos presentes (felizmente uma minoria), que não se coibiram de abrir ruidosamente garrafas de champagne durante um espectáculo que implicava profunda concentração por parte dos artistas. Merece igualmente referência o correcto acompanhamento ao piano a cargo de Lorenzo Bavaj, particularmente feliz na execução (em interlúdios) de dois temas de Astor Piazzola. Entre os vários momentos de canto, os mais bem sucedidos foram "Malinconia d'Amore" (D'Anzi) e "Musica Proibita" (Gastaldon) pondo em evidência a doçura sensual de um timbre peculiar. Contudo, a apoteose viveu-se apenas nos momentos finais dedicados às canções espanholas - "Aranjuez", maravilhosa composição de Joaquin Rodrigo e, em especial, "Granada", a que a inspiração de Lara imprimiu algo do fascínio daquela cidade andaluza. Carreras está prestes a completar 54 anos e o seu aspecto revela traços de envelhecimento que a doença, apesar de dominada, terá acelerado. Assim mesmo, revela ainda potencialidades que justificam a atenção dispensada às suas actuações, como foi patente num "encore" pleno de sensibilidade: "Torna a Sorriento" (Curtis). Pela nossa parte, saudaremos sempre o seu regresso.

 

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Source: Correio da Manhã
Date Published: October 27, 2000
URL: http://www.correiomanha.pt/showNews.php?id=1274&CM=20a7114ad337634ba922b23a9737ed87