Agarrar o público em três minutos é, provavelmente, o sonho de todos
quantos sobem a um palco. O tenor não precisou de metade desse tempo para
conquistar um Casino Estoril rendido à sua arte Sílvia Costa Cascais
DN-Natacha Cardoso GRANDE TENOR.
Um repertório ligeiro foi sustentado por uma voz de eleição
Que melhor tema para iniciar um recital nocturno que Luna Nova? A única
acusação feita a José Carreras após a actuação de quarta-feira, à noite, no
Casino Estoril, foi a de ter estado pouco tempo em palco. Mas mesmo isso os
1200 espectadores, rendidos, lhe perdoaram. Ouvir uma voz como a de
Carreras é sempre um privilégio e o risco de o tenor receber um telefonema
íntimo nos bastidores é... mínimo.
É claro que quando "Josep", o seu verdadeiro nome, catalão, voltou para
atacar dois temas em francês, já as alusões ao caso Elton John se tinham
varrido de uma assistência tão concentrada que conseguiu cumprir, à risca,
a recomendação dada pelo mestre-de-cerimónias, Júlio César: "Não tilintem
os copos."
A acompanhar o tenor, o pianista Lorenzo Bavaj. E, se este havia permitido
a Carreras um primeiro momento de descanso ao interpretar Valsa Lúgubre, de
Rossini - dando, ao mesmo tempo, a oportunidade de se abrirem as garrafas
de champanhe, sem interferirem com "a voz" -, o pianista provaria, em mais
duas ocasiões, uma especialização apurada em temas de Astor Piazzolla.
Quanto a Carreras, crescia, crescia... até um primeiro momento com o Casino
a seus pés, graças a Malinconia D'Amore. O repertório tinha sido escolhido
de modo a não defraudar ninguém. Vurria... emprestou outra dimensão a um
tema que serviu de suporte a uma telenovela de sucesso - Terra Nostra -,
mas, para o fim, Carreras confiou no luso gosto pela música espanhola e
fechou com chave de ouro, preparando a retirada com Aranjuez e arrasando
com uma potente Granada.
Os aplausos obrigariam ainda a um encore: com Torna a Sorrento, tema
frequentemente interpretado por Pavarotti, Carreras despediu-se. Cantou 80
minutos, mas, quando a qualidade é muito alta, sabe sempre a pouco.
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