Photo Caption: Jose Carreras interpretou um programa ligeiro em Faro
Na senda da passagem por Faro da soprano catalã Monserrat Caballé, há dois anos, e do tenor italiano Luciano Pavarotti, o ano passado, a Comissão de Turismo do Algarve trouxe a Portugal, na quinta-feira, o segundo dos "três" tenores: Jose Carreras. A encerar o 25º Festival Internacional de Música do Algarve, o mundialmente conhecido artista acompanhado da cantora brasileira Simone, do Coro dos Antigos Orfeo- nistas da Universidade de Coimbra e da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML), sob a batuta de David Jiménez, exibiu-se com sobriedade numa muito esperada noite. Ao contrário dos outros cantores que encheram o Estádio Municipal de S. Luís, na capital algarvia, Carreras actuou no sítio do Pontal (nos arredores da cidade) no mesmo palco onde a semana passada se desenrolaram os festejos da imensa concentração internacional de "motards". No meio de pinhais que sobranceiam a Ria Formosa, e num terreno de terra batida, muitos algarvios e turistas vestidos a rigor, quase encheram um espaço aberto com entradas iluminadas com archotes. Contudo, a pompa e circunstância da plateia, a amplitude do palco (ladeado por dois ecrãs gigantes) e a dimensão e peso da própria orquestra, não se coadunam com um concerto estival ao relento, com pó no chão e aviões, de tempos a tempos, a cruzar o céu estrelado.
Começo atrasado
Carreras, que nos visitou em 98 para cantar na Expo, ao lado de Teresa Salgueiro (dos Madredeus) não parece interessar-se pelo nosso canto lírico pois, ao contrário de Plácido Domingo que cantou "Otelo" no Teatro de S. Carlos (e que actua com alguma regularidade ao lado da cantora portuguesa Elizabete Matos) "refugiou-se" aqui num reportório mais aligeirado deixando o universo operático para outros cantores. Com quase meia hora de atraso, o concerto começou com as "Vésperas Sicilianas", de Verdi pela OML, e continuou morno com Carreras a cantar "L' ultima Canzone". Seguiu-se "Era De Maggio", uma canção bucólica e dançante, tendo o tenor dado lugar ao coro e à orquestra para o popular Coro dos Escravos, "Va Pensiero", da ópera "Nabucco" (também de Verdi). Sem grande profundidade e temperado com o barulho de um avião a descolar, este tema ficou muito além de uma interpretação por um coro sinfónico. Duas canções, "Vierno" - a que Carreras emprestou uma dimensão mais dramática - e "Música Proibida", com um toque mais "aveludado", antecederam outro desempenho dos orfeonistas: o tema "Vedi le Fosche", do "Trovador". A fechar uma primeira parte sem muita exuberância, Carreras regressou ao palco e brindou o público com uma ária melancólica, "É la Solita Storia", da "Arlesiana", em que, finalmente, "puxou" um pouco mais pela voz.
Simone em grande
Depois do intervalo é que o espectáculo agarrou um pouco mais o público, com a OML atacando com mais verve a canção napolitana "Guapparia" e, a seguir, "Vurria", que Carreras ambas interpretou sem esforço. Simone, uma artista conhecida e amada em Portugal, surpreendeu o público com uma enfeitiçada interpretação da mais bela canção de Tom Jobim: "Garota de Ipanema". Fazendo-se acompanhar do pianista brasileiro Ricardo Leão e de um pequeno copo de plástico em que batia o ritmo enquanto cantava, Simone, cada vez mais madura e envolvente, prosseguiu com outro tema "mítico": "Eu Sei que Vou te Amar". Juntamente com Carreras, ainda cantou "Manhã de Carnaval" (com um belo arranjo orquestral) e "Solamente Una Vez", ambos com contagiante serenidade. A voz grave, interiorizada e cheia da antiga jogadora de basquete, que já fez duetos com Domingo, casa lindamente com a de Carreras e mostrou como a simplicidade pode muito bem triunfar em português num universo linguístico e acústico maioritariamente italiano. Uma ária da zarzuela "A Boda de Luis Alonso" constituiu um momento alto da OML, com belos solos de flauta e "picollo" e um bom desempenho dos percussionistas e do naipe de metais dirigidos pelo jovem maestro catalão Jiménez. O delicioso "Concerto de Arranjuez", de Joaquín Rodrigo, e a inevitável "Granada" encerraram um programa em com alguns temas obrigatórios nos espectáculos dos "três tenores". Como "extras", Carreras cantou um tradicional napolitano, "Torna a Suriento" e, de parceria com Simone, Alfonsina y el Mar" do argentino Ariel Ramirez - o autor de "Missa Criola". Esta canção, que é uma pérola do reportório "ligeiro" latino-americano, surgiu quase sussurrada pela cantora enquanto o tenor a interpretou em jeito de lamento. Com uma multidão em palco, e numa óbvia homenagem aos antigos estudantes e ao povo português, o evento quase terminou com a bela "Coimbra". A três quartos para o público e de costas cobertas com capas negras, por momentos, os dois solistas deixaram brilhar o coro antes de um final emociona nte e com todos a cantar em uníssono e o público a aplaudir de pé. Para epílogo de um concerto "ligeiro", Carreras escolheu "Rosó", uma canção de amor na sua língua mãe que afirmou ter "algo parecido com o português", terminando uma noite de canto algo irregular mas que levou ao Pontal mais de 4000 pessoas
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